Inicio esta descompromissada dissertação alertando o eventual leitor de que o assunto nela abordado é a pornografia. Também não custa avisar-lhe que, apesar do vocabulário plebeu que me autorizo a usar, pretendo não sucumbir totalmente à vulgaridade que inere ao tema.
Não sou um consumidor contumaz de filmes pornográficos. Já o fui outrora, quando tive o prazer de assinar um canal pornô da tevê a cabo, mas, ao perceber que as minhas saídas de casa diminuíram consideravelmente naquele período, achei mais saudável cancelar a assinatura. Entretanto, com a descoberta do Emule, voltei a degustar algumas boas fitas, notadamente as francesas e italianas, a que se darão os merecidos comentários daqui a alguns parágrafos.
Apesar de não ser um conhecedor do assunto, já tenho um gosto muito bem delineado. Não aprecio, por exemplo, os longos planos fechados ginecológicos que a maioria absoluta dos filmes pornográficos traz (interessantemente, só os planos são fechados; o resto é bem aberto). Aquela câmera invasiva, com seu zoom endoscópico, penetra a vergonha da atriz quase antes que o falo do coadjuvante, fazendo o pobre telespectador, como um decassêgui que trabalha numa fábrica de televisores, perder a noção do conjunto e nem saber o que está vendo ou fazendo. Às vezes essas cenas duram tanto tempo que esqueço tratar-se de um homem e uma mulher transando. Parece que há somente uma buceta e um pau, ambos com vida própria, digladiando-se. É por isso que recomendo aos pornógrafos a maior exploração de planos abertos, os quais permitem ao “voyeur” lembrar que, diante de si, há dois seres humanos copulando.
Encenação também é algo que, como banho diário, não faz mal a ninguém. É bom assistir a estrelas que vivem os papéis que lhes são atribuídos. Menciono aqui, conforme prometido há dois parágrafos, os filmes europeus, principalmente os italianos e franceses da década de 70. As mulheres, além de belíssimas, atuavam. É possível ver emoção em seus olhares, em seus gritos, em suas danças pélvicas. Diferentemente da maioria das “atrizes” pornôs brasileiras, os seus olhos jamais encontram os da câmera e suas línguas não precisam se perder em movimentos ofídicos, que não excitam nem um estudante da sétima série.
Outra coisa deve ser dita aos pornógrafos: nada dá mais tesão do que o amor (considerando-se que ele realmente exista). Tenho vontade de ver um filme em que casais apaixonados façam sexo. Tenho certeza de que uma pornografia romântica, com muita ênfase ao beijo na boca – o ato mais delicioso, na minha excitada opinião –, faria muito sucesso. Está certo que a sacanagem é fundamental, uma vez que incorpora a transgressão que todos buscamos no cinema, mas os sentimentos mais triviais não podem ser subestimados.
Por falar em trivialidade, alguém tem dúvida de que ela dá tesão? Não há delícia maior que o corriqueiro. O homem que assedia com sucesso a empregada da casa ao lado, vestida com uma camiseta velha do Belinati (talvez o detalhe do figurino pudesse ser repensado); o rapazola que entra no quarto da prima de madrugada para espiá-la e comê-la; a habilidosa felação da namorada no elevador de serviço; tudo isso e tantas outras coisas poderiam, articuladas por um enredo (por que não?), trazer a putaria para mais perto da realidade. Eu adoro o sexo comum.
Vale dizer que sempre achei ridícula qualquer tentativa artificial da mulher de parecer mais sensual, como os “stripteases”. Essa história de tirar parte por parte da roupa vagarosamente e ficar dançando em torno de um cilindro de ferro dá muito trabalho e me faz rir. Algemas e roupas de couro, então, serão muito bem-vindas se o objetivo da mulher for ver um homem amolecer de tanto gargalhar. Talvez uma enxada seja mais excitante.
Quanto às trilhas sonoras, sugiro a extinção total daquele bluezinho hediondo e monótono dos pornôs americanos (aliás, muito ruins em sua maioria). Acho que todos os filmes de sexo deveriam ter música do Ennio Morricone, bem à moda de “A Fistfull of Dynamite”, fita cuja trilha mais me excitou até hoje. Um Grieg talvez fosse legal também.
Agora, sem muita preocupação com um final brusco, peço licença. Tenho que ver a quantas andam os meus downloads no Emule.
Publicado em 25 de junho de 2006 às 20:18 por tanga