Trabalhei durante três meses numa grande rede varejista de eletrodomésticos. Lembro-me muito bem do slogan: “Nós amamos você mais do que tudo”. Sim, esse “você” é você mesmo. Pode acreditar.
Mas o que me interessa no momento é relatar mais uma das vezes em que a voz estranha se manifestou dentro de mim. Essa voz, hoje relativamente controlada pelo cloridrato de venlafaxina, 75 mg, já me incomodou muito, talvez pelo fato de até hoje eu não saber se ela é minha.
Foi numa sexta-feira, meio de tarde. Na entrada da loja, eu observava o movimento do calçadão e tentava arrumar a gravata que integrava o uniforme. O movimento estava fraco.
De repente entrou um homem irritantemente feliz, acompanhado de três pessoas. A esposa tinha rosto papudo, mas curiosamente o corpo lhe era grato. As tetas eram grandes, e não me abandona a memória a imagem de os bicos desafiando o tecido do sutiã e formando um relevo gostoso de ver e sentir. O filho, com seus oito ou nove anos, era desses moleques comuns e sem-graça, que não merecem atenção nem descrição. Já a filha... A filha talvez tivesse o dobro da idade do garoto. Poucas vezes vira eu um corpo tão apetitoso quanto aquele. Os peitinhos doloridos e o traseiro matematicamente delineado lhe davam todo o direito de ser antipática, como de fato era.
– O senhor já foi atendido? –, perguntei ao pai, provável representante comercial de miliquinhentos por mês e detentor da minha comissão. A resposta negativa me deu o direito de atendê-lo. Afaguei o seu ombro, dando ao homem a impressão de que ele realmente era importante para a empresa. Ele não imaginava que, na verdade, era a filhinha nojenta e gostosa dele que eu amava mais do que tudo. E era a parte interna da coxa esquerda dela que eu afagava.
– Procuro um karaokê –, disse-me o Eduardo, que naquele momento era o Senhor Eduardo. Confesso que, apesar de ter ouvido claramente a frase, solicitei-lhe educadamente que a repetisse, porque, de alguma forma, senti que não tivesse captado bem a informação. E ele, também educado, repetiu-a de forma perfeitamente audível.
Disse-lhe que havia karaokês de várias marcas, a maioria com DVD integrado. Acompanhado da esposa e do filho – a garota se distraía com o mostruário de celulares –, o chefe de família acompanhou atentamente minhas explicações treinadas e, aparentemente, acreditou em todas as bobagens que disse com a finalidade de abocanhar os meus quinzão pela venda. Ele consultava a mulher e o filho, que demonstravam ansiedade em ter aquela máquina de diversão no lar e emitiam comentários incrivelmente ineptos sobre qual seria o melhor aparelho. O papai acatou. Escolheu a marca indicada pelos dois.
Dirigimo-nos a um dos computadores da loja, no qual eu poderia, a pedido do Eduardo, consultar o preço do aparelho escolhido. Enquanto eu digitava o código do produto, logo após a imponente senha de acesso ao sistema, ouvi a pergunta:
– Amigo, esse aí tem pontuação, né?
Tive a impressão de ter ouvido essa seqüência de palavras em slow motion. Ela acordou de vez a voz estranha, que tanto me faz mal, com seus erres muito bem pronunciados ao final de cada palavra:
“Esse babaca quer um karaokê. Ele quer se divertir com a família. Ele quer se convencer de que pode se divertir ao lado da mulher, há muito tempo não desejada, e dos filhos, que comem o seu salário. Olha, posso vê-los agora... O babaca, de olhos fechados, canta ‘Yesterday’ ao microfone, enquanto parentes e amigos riem, cheios de alegria, de sua falta de habilidade. ‘Pára de judiar da música’, diz o cunhado, todo criativo. A diversão toma conta de todos. Eles se divertem com o karaokê. Não... agora o babaca está abraçado com a filhinha gostosa, que infelizmente ele vai ter de dar para os outros comerem. Os dois cantam e gargalham uma música sertaneja. Depois, conferem a pontuação, em cuja veracidade acreditam de forma inconteste. Meu Deus, eles querem um karaokê com pontuação. Eles querem se divertir. Eles querem rir da nota que a máquina criteriosa lhes dá. Eles querem se abraçar em frente à tevê, eles querem interagir, eles querem esquecer que estão vivos. Eles querem esquecer que a única certeza são os dois pedaços de algodão, um em cada narina, ao lado de muitas flores e sob o belo crucifixo. A única música dessa hora vai ser a entoação do terço, com um e outro choro ao fundo. E aí, qual vai ser a pontuação? Quer saber a pontuação agora? Hem? Hem?”.
– Sim, Seu Eduardo. É claro que tem pontuação! O senhor vai adorar.
E foram-se os quatro, felizes, com o karaokê na sacolinha. Olhei pela última vez o traseiro da filha do Seu Eduardo. Também olhei para mim mesmo. E me assustei.
Publicado em 10 de julho de 2008 às 12:07 por tanga