Na tenra idade eu não via tua imagem.
Se não te enxergava, não existias.
Hoje meu corpo tuas garras invadem
E sei que a mim faltam só alguns dias.
Mas... que é isto que me escurece a vista?
Mendaz, não eram dias! Só minutos...
Afasta-te. Permite que eu exista
Ao menos alguns instantes. Não muitos.
Sonegas-me o ar. És surda ao apelo
De quem, tal como ao ar, nunca te viu
E agora deseja manter-se cego.
Porém, teu rosto é nada, posso vê-lo.
Teu cheiro é triste, teu olhar é frio.
Arranca esta dor... e a ti eu me entrego.
Trabalhei durante três meses numa grande rede varejista de eletrodomésticos. Lembro-me muito bem do slogan: “Nós amamos você mais do que tudo”. Sim, esse “você” é você mesmo. Pode acreditar.
Mas o que me interessa no momento é relatar mais uma das vezes em que a voz estranha se manifestou dentro de mim. Essa voz, hoje relativamente controlada pelo cloridrato de venlafaxina, 75 mg, já me incomodou muito, talvez pelo fato de até hoje eu não saber se ela é minha.
Foi numa sexta-feira, meio de tarde. Na entrada da loja, eu observava o movimento do calçadão e tentava arrumar a gravata que integrava o uniforme. O movimento estava fraco.
De repente entrou um homem irritantemente feliz, acompanhado de três pessoas. A esposa tinha rosto papudo, mas curiosamente o corpo lhe era grato. As tetas eram grandes, e não me abandona a memória a imagem de os bicos desafiando o tecido do sutiã e formando um relevo gostoso de ver e sentir. O filho, com seus oito ou nove anos, era desses moleques comuns e sem-graça, que não merecem atenção nem descrição. Já a filha... A filha talvez tivesse o dobro da idade do garoto. Poucas vezes vira eu um corpo tão apetitoso quanto aquele. Os peitinhos doloridos e o traseiro matematicamente delineado lhe davam todo o direito de ser antipática, como de fato era.
– O senhor já foi atendido? –, perguntei ao pai, provável representante comercial de miliquinhentos por mês e detentor da minha comissão. A resposta negativa me deu o direito de atendê-lo. Afaguei o seu ombro, dando ao homem a impressão de que ele realmente era importante para a empresa. Ele não imaginava que, na verdade, era a filhinha nojenta e gostosa dele que eu amava mais do que tudo. E era a parte interna da coxa esquerda dela que eu afagava.
– Procuro um karaokê –, disse-me o Eduardo, que naquele momento era o Senhor Eduardo. Confesso que, apesar de ter ouvido claramente a frase, solicitei-lhe educadamente que a repetisse, porque, de alguma forma, senti que não tivesse captado bem a informação. E ele, também educado, repetiu-a de forma perfeitamente audível.
Disse-lhe que havia karaokês de várias marcas, a maioria com DVD integrado. Acompanhado da esposa e do filho – a garota se distraía com o mostruário de celulares –, o chefe de família acompanhou atentamente minhas explicações treinadas e, aparentemente, acreditou em todas as bobagens que disse com a finalidade de abocanhar os meus quinzão pela venda. Ele consultava a mulher e o filho, que demonstravam ansiedade em ter aquela máquina de diversão no lar e emitiam comentários incrivelmente ineptos sobre qual seria o melhor aparelho. O papai acatou. Escolheu a marca indicada pelos dois.
Dirigimo-nos a um dos computadores da loja, no qual eu poderia, a pedido do Eduardo, consultar o preço do aparelho escolhido. Enquanto eu digitava o código do produto, logo após a imponente senha de acesso ao sistema, ouvi a pergunta:
– Amigo, esse aí tem pontuação, né?
Tive a impressão de ter ouvido essa seqüência de palavras em slow motion. Ela acordou de vez a voz estranha, que tanto me faz mal, com seus erres muito bem pronunciados ao final de cada palavra:
“Esse babaca quer um karaokê. Ele quer se divertir com a família. Ele quer se convencer de que pode se divertir ao lado da mulher, há muito tempo não desejada, e dos filhos, que comem o seu salário. Olha, posso vê-los agora... O babaca, de olhos fechados, canta ‘Yesterday’ ao microfone, enquanto parentes e amigos riem, cheios de alegria, de sua falta de habilidade. ‘Pára de judiar da música’, diz o cunhado, todo criativo. A diversão toma conta de todos. Eles se divertem com o karaokê. Não... agora o babaca está abraçado com a filhinha gostosa, que infelizmente ele vai ter de dar para os outros comerem. Os dois cantam e gargalham uma música sertaneja. Depois, conferem a pontuação, em cuja veracidade acreditam de forma inconteste. Meu Deus, eles querem um karaokê com pontuação. Eles querem se divertir. Eles querem rir da nota que a máquina criteriosa lhes dá. Eles querem se abraçar em frente à tevê, eles querem interagir, eles querem esquecer que estão vivos. Eles querem esquecer que a única certeza são os dois pedaços de algodão, um em cada narina, ao lado de muitas flores e sob o belo crucifixo. A única música dessa hora vai ser a entoação do terço, com um e outro choro ao fundo. E aí, qual vai ser a pontuação? Quer saber a pontuação agora? Hem? Hem?”.
– Sim, Seu Eduardo. É claro que tem pontuação! O senhor vai adorar.
E foram-se os quatro, felizes, com o karaokê na sacolinha. Olhei pela última vez o traseiro da filha do Seu Eduardo. Também olhei para mim mesmo. E me assustei.
O homem, com a experiência acumulada, resolveu tomar cuidado no último relacionamento, porque sabia que estava longe de ser o último. Não trouxe a mulher para casa, a fim de não associar cômodos e objetos a ela. Evitou pescoço e orelhas, já que o mesmo perfume poderia estar em efemeridades ulteriores. Mas o cuidado maior foi com os ouvidos: durante todo o tempo em que estiveram juntos, o homem simplesmente não ouviu música alguma, para que, quando tudo acabasse, nenhuma melodia sussurrasse o nome da mulher.
Hoje, ele não pode mais ficar em silêncio. O silêncio é ela.
Hoje, no escritório de assuntos jurídicos da universidade, eu vi um molequinho lindo. Acompanhava a mãe, que provavelmente procurava pelo pai dele. Devia ter seus três anos. Talvez mais. Os olhinhos eram bem vivos e ficavam saracoteando por todos os lados daquele lugar diferente. Só não chegavam até mim.
Eu queria jogar um tchauzinho pra ele, mas o bichinho se importava muito mais com o vaivém do local, com as mesas, cadeiras e estagiários espalhados. Em dado momento, ameacei levantar a mão direita, porque achei que ele tivesse finalmente me dado atenção, mas era para o bebedouro, à minha esquerda, que olhava.
Perguntei-me por que eu queria tanto menear a mão àquele ser. Descobri, sem ter de cavar muito, que era por causa daquela chupetona atrás da qual ele estava. Sim, ele usava uma chupeta gigante de alguma marca pouco divulgada, com o bico amarelo de fábrica. Quem é pai conhece a lei das chupetas: o preço é inversamente proporcional ao tamanho da armação e à amarelidão do látex.
Comecei a interpretar aquele indicador social. Crianças com chupetonas de bico amarelo geralmente têm pais pobres. (Na verdade, esse plural é pretensioso: crianças com chupetonas de bico amarelo raramente têm pai. Imagine pais!) Crianças com chupetonas de bico amarelo não comem bolachas recheadas quando querem. Crianças com chupetonas de bico amarelo não pedem pra ver o Dinossauro Barney, porque nem sabem que existem amiguinhos encantados além da tevê aberta. Crianças com chupetonas de bico amarelo choram muito, e ninguém limpa o ranho antes que seque e verdeie todo o entorno da boquinha, quando consegue atravessar a imponente orla de plástico.
Nem o Papai Noel gosta das crianças com chupetonas de bico amarelo. Nem o Papai Noel.
A mãe do menino enxaguou o meu plano de dar e receber tchau. Pegou o filho pelo bracinho e puxou-o através de uns três metros de chão, até chegarem à escada, pela qual sumiram aos poucos. A criança, sacudindo a chupetona com chuchadas ainda mais fortes, simplesmente ia, conduzida pela mulher. Não tinha a mínima idéia de onde estava e de aonde ia. Também não sabia, nem vai saber, que na farmácia existem chupetinhas ortodônticas de silicone da Nuk.
Descobri, então, o porquê de eu querer dar tchau àquele garoto. Eu queria, na verdade, que os dois, ele e a chupetona de bico amarelo, saíssem de perto de mim.
A paixão é uma ilusão
Que se elimina na urina.
É só esperar e sarar.
Gado.
Sempre gado.
Sem prega.
Pregado.
Empregado.
Hoje tive o prazer de compartilhar o elevador com um sábio. Somente três andares me separavam do térreo, o que, infelizmente, tornou exíguo o tempo ao lado do homem. Mas enganam-se os que subordinam a sabedoria às garras dos minutos, ou dos segundos. Uma inesquecível demonstração de inteligência necessita somente de um átimo.
O avatar estava acompanhado do filho adolescente. Este, olhando-se ao espelho do elevador, numa jovial atitude de distração, disse ao pai que estava pensando em entrar na escola de circo. O mestre, que o tempo todo olhava para baixo, disse:
- Ahã. Vai, sim.
O garoto, então, pôs-se a argumentar. Disse que achava lindas aquelas apresentações circenses com tecidos. E, antes mesmo que minha imaginação me brindasse com as imagens propostas pelo menino, meus ouvidos me presentearam com a mágica daquele malabarista do saber, daquele verdadeiro Beto Carrero, prestes a salvar o filho das nefastas garras da ausência de enxada:
- Ahã. Vai, sim.
Não tenho o dom de traduzir a língua dos anjos, mas ouvi as duas respostas deste modo: “Vai carpir o canteiro central da Rio Branco, meu filho”; “Vai colher manga em Medianeira, meu filho”.
Vi morrer um palhaço, antes mesmo de nascer.
É o meu andar. Uma boa tarde.
yesterday she was beautiful. the moon light showed me her magnificent face.
sadness. love. that’s the same thing.
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Mostra de Curtas da Kinoarte…
Eu não agüento mais essas apresentações de taiko (ou taikô?). É só ligar a televisão para ver a japonesada espancando tambores, gritando e erguendo sincronicamente as baquetas. Com todo o respeito à tradição, assistir uma, duas, até três vezes pode ser interessante. Mas todo dia, como querem alguns canais de televisão que eu faça, nem o Seu Miyagi agüentaria.
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Algo me diz que, na madrugada da virada de ano, alguma macumba foi feita no Rio e em Salvador. Será?
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Aqui em Londrina o espetáculo pirotécnico me surpreendeu. Foram dois rojões e vinte segundos do mais puro traque. O Nedson deveria pensar em atrair mais turistas para o próximo fim de ano.
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Ontem, em conversa telefônica com o Maurício, disse-lhe que não entendo o motivo pelo qual um adulto compra fogos de artifício. Quando eu era moleque, tinha muito prazer em estourar latinhas de refrigerante, recipientes plásticos e seres vivos dotados de exoesqueleto quitinoso. Mas, já aos 16 anos, comecei a me sentir idiota ao usar esses artefatos. Deve haver algum componente fálico no ato de usá-los: quanto mais imponente a explosão, mais potente quem a promoveu. Deve ser algo semelhante ao que move um e outro pelintra a fazer empréstimo a juro para equipar o chevete com um sonzão nervoso e socar o bicho no chão. Talvez a Psicologia explique assim, mas na minha visão a relação é mais simples: quanto mais incômodo o estouro, menos desenvolvida a mente de quem o causou.
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Além do adulto amante de fogos, amedronta-me outro tipo de gente: a fã que, na primeira fila do show de seu ídolo, olha-o chorando, em catarse, e canta-dança sem erro as suas letras, com a cabeça envolta por uma faixa com o nome do “artista”. O pior é que sempre alguma câmera capta essa imagem e joga-a em nossas casas. Vi uma porção delas ontem no deprimente Show da Virada da Globo, que fui obrigado a tolerar durante cinco minutos. Virou o estômago.
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Estudar para concurso, ninguém quer. Trabalhar no xerox da universidade, também não. Passar a noite do dia primeiro fazendo dogão especial com bacon no lanche do Moacir, muito menos. Memorizar letras de axé e cantá-las abraçadinho com os amigos cheios de abadás, todo o mundo quer.
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Registro aqui uma construção inédita na história da lusofonia: “Eu não ‘escuti’ nada”, disse-me ontem um senhor que tem toda a minha simpatia. Está certo ele, oras! Se os pares bato/bati, como/comi e bebo/bebi estão certos, quem vai convencer a mente humana de que escuto/escuti não está? E viva a regularidade verbal!
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Tenho ouvido algumas pessoas reclamarem do sucesso alheio com a seguinte frase: “O cara é um idiota, mas tem dinheiro pra caramba”. Mais adequado seria dizer que o cara tem dinheiro pra caramba “porque” é um idiota. A relação é causal, e não adversativa. Um colega de Direito está certíssimo: “Estudar pra quê? Pra morrer sabido?”.